quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Duas luas

As nossas sombras cruzam-se durante o teu caminhar e, num instante, tudo passa a fazer sentido. A obscuridade resgata-te do esquecimento, mais que o anseio de um abraço.

5 comentários:

  1. Duas linhas paralelas não se cruzarão até o limite mesmo do infinito.As sombras acompanham os seus corpos e dependem da luz.Na obscuridade resgatam-se o esquecimento e o anseio de qualquer coisa, até um abraço. Na obscuridade se quer paz ou sexo.

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  2. Bolas, eu com este comentário não me meto! Não digo nadinha de nadinha! Vou copiar esta coisa para os meus arquivos!...

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  3. Li o título e pensei: pronto, vai falar em rabiosques. Depois li e fiquei envergonhada com os meus pensamentos.
    Gostei tanto que não tenho como comentá-lo.

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  4. Maguigas, pronto! Estamos no mesmo patamar! Eu também já estou como havia de estar! Rendo-me! Mas, garanto-te. Vou escrever sobre isto! Vai lá para as minhas coisas! A sério que gosto mesmo!

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  5. Duas luas


    As nossas sombras cruzam-se durante o teu caminhar e, num instante, tudo passa a fazer sentido. A obscuridade resgata-te do esquecimento, mais que o anseio de um abraço.

    Foi esta a manhã das coisas que acordam embrulhadas em nesgas de papel. A obscuridade de o dia de ontem, quando a lua se sobrepunha sob as árvores, parece querer ficar ainda nos raios de luz que se estendem pela manhã fora.
    Ficou em mim uma espécie de cartucho de papel, daqueles onde se embrulham as castanhas quentes que fumegam e as mãos sujas de quem as conta, uma a uma, à sombra da lua.
    Começo pelo vértice branco dobrado na ponta. O papel desconhece que sou feita de carne e que não existe em mim nenhum vaso oco. Nos interstícios da matéria caem pedaços de mim que se infiltram na fundura das sombras. O cartucho de papel vai-se alargando à espera de me conter como se eu não me tivesse já escoado, pedaço a pedaço, até ao limite para o qual já não há regaste.
    As sombras à volta do cartucho, enrolado por mãos hábeis, que não as minhas, repercute-se em estalidos bravios dos dedos, tentando fazer do esquecimento o gosto que se desfaz na boca.
    As horas passam com uma brandura e quietude extremas. O cartuxo de papel tem agora um tamanho normal, perfeitamente acessível a qualquer olhar que desça das sombras. Mais do que cartucho de papel, cheio de mim, a esfarelar-me toda na boca invisível de alguém que só existiu na minha memória, existe agora um cálice de vidro onde subi, vinda não sei de onde, resgatada, e liquefeita, num tom róseo e cintilante. O desafio do impossível cresce e parece estar pronto a ser sorvido por lábios humanos.
    Inesperadamente, o cartucho de papel reclama toda a minha substância. Mal tenho tempo para me aperceber se alguma coisa faz sentido nesta vida. O cálice estilhaçou-se nas sombras, antes do encontro e do abraço se ter consumado.
    20-09-2012
    Isabel vieira

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