quinta-feira, 23 de março de 2017

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Promessas incumpridas, fantasmas peregrinos do nosso íntimo.

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O número de versões de uma mesma história é, ao contrário do que nos diz o senso comum, finito. Coexistem apenas quatro: a dele, a dela, o outra que cada um faz sua, e aquela que ninguém quer saber. A verdade não tem papel neste embuste. 

Mélancolie aux temps modernes I





Edward Hopper, Morning Sun, 1952





quarta-feira, 22 de março de 2017

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Todo o beijo é um doce nada quando o seio não atesta vestígio do augusto dente.


Há caricias que são um desafio à brisa que sopra


I

(Coincidências existem e todas gostam de mecânicos*)

(Uma tarde quente. Restos de sol assomam no horizonte. Um tampo redondo com o pé enterrado, no qual pousam copos vazios, serve de mesa. A roupagem é adequada à ocasião. Perto um rádio toca baixinho. Ao longe risos e gritos de crianças.)





    — Exijo um grande amor.
    — O enxoval de nascimento não trazia um?
    — Não.  
    — Vá à farmácia e reclame. É suposto vir junto com o biberon, as tetinas e a bula elucidativa.
    Empurra a almofada com a nuca, fecha os olhos, e sorri condescendente. Ela, contudo, não sossega.
    — A minha ânsia é grande e urgente. Quero um, daqueles que irrompem velozes e marcham cedo.
    — Bebeu demais? Novamente? Experimente o Hamilton, aquele da Fórmula Um. Rapidez não lhe falta. E é mulato. Parte logo com cinco centímetros de vantagem.
    — Não seja tolo, estou em absoluto estado de necessidade. É uma emergência!
    — Admito que sim, todas as carências femininas são prementes, inadiáveis, e devem ser atendidas com prontidão, eficácia e higiene. Como um duche. Foram os americanos que inventaram o chuveiro. Sabia?
    — Criatura irritante. Sabe disso e tem prazer.    — Desculpe, a personagem fugiu ao controlo do narrador.
    — Sim, boa parelha. Você mais esse ar enjoado que o acompanha.
    — Está equivocada, quem me acolita é o jugo aperreado da sensatez.
    — Goze à vontade, não vou goglar as merdas que você fala. Não há muitas que o aturem como eu. E para que conste este meu desejo é vital. Você não entende.
    — Mesmo que finja dormir vai continuar e explicar-me, portanto...
    — Então diga-me, vamos, diga-me lá, como posso eu, esta bela criatura de Deus, sã e bem-disposta, adoptar o ar trágico das grandes divas, carente, frágil, o olhar mortiço, a languidez anémica que os homens tomam por sensualidade? Tudo isso sem um grande amor falhado, ou, vá lá, dois, e no futuro...
    Ele atalhando o discurso.
    — Pode sempre fingir.
    — Parvo! Dessa fama não se livram as mulheres. A nossa arte de representar deve ser preservada para os momentos realmente importantes.
    — Ouvi dizer.
    — Não se faça desentendido, é do conhecimento geral. Oh!... Deixe-me adivinhar... esteve na situação? In casu, como você diz?
    — Não saberia distinguir. As actrizes que privaram comigo eram mestras do seu ofício. Suas amigas. Diga-me você.
    — Todos o mesmo! Vocês homens!...
    Abana a cabeça e entorta os olhos. Ele ri-se.
    — Allez, allez, basta de trash-talk. Conclua.
    — Sempre impertinente, como as criancinhas. Digo eu que o ideal seria um casamento arruinado por um amante que depois me abandonasse. Duas tragédias no mesmo pacote: o casamento rapidinho, em que deixo o marido por uma paixão leviana. Mais tarde verifico que afinal este não é melhor que o outro e, antes de reagir, ele troca-me por uma qualquer pita de shortinhos, aparelho nos dentes e fio dental. Pudesse eu e seria esta a história da minha vida. Viu a mina?! Um blogue, dois blogues, três blogues. Assunto para anos. Talvez me transformasse em guru das mal resolvidas e um verdadeiro íman para os homens: eles adoram consolar mulheres ultrajadas. Só vejo lucros. Melhor que isto apenas ficar com metade dos bens do primeiro, um filho de cada e duas pensões de alimentos.
    — Falta poesia nessa conversa de puta. E se desgraçar alguém?
    — Não seja parvo, os homens recuperam depressa, estão sempre prontos para outra, qualquer rabo-de-saia tapa a ferida.
    — E as mulheres não?
    — Claro que não, as mulheres têm outros problemas, nem imagina a trabalheira. Sabe lá o que custa ter sempre álibi para os desesperos? Os xiliques amolengados ao fim-de-semana? As neuras mensais? Olhe que a TPM não desculpa tudo, é mais fácil culpar o desgraçado que nos abandona "aquele malvado que não me estimou", o filho-da-mãe que "fez de mim uma triste, uma infeliz, nunca mais serei capaz de amar". Uma mulher precisa destes suportes emocionais para o quotidiano, as banalidade da existência, a rotina diária. Eu penso muito nisto.
    — Camandro, Sófocles, volta. Estás perdoado!
    — Tantã duas vezes. Já ninguém diz camandro e o palavrão não me intimida. Desde a minha experiência com o rapaz mecânico, sempre pronto a "fazer a revisão e mudar o óleo", "calibrar as jantes e alinhar a direcção", mais todos os "vou ligar o turbo", "cortaaaaando a meta" até ao "fritei a junta da cabeça", que fiquei atestada.
    — Não fantasie, vê demasiada pornografia: é sempre o entregador de pizzas, o canalizador, o faz-tudo ou o mecânico. O rapaz era bate-chapas e chamava-se Amabélio, ninguém com esse nome fala assim. Seja como for deixou-lhe uma bela carroçaria. Queimaram muita borracha?
    — Sempre com remoques, até parece que está com inveja. Agora é tarde, quando eu dei você não quis.
    — Fazendo uso das suas figuras de retórica: vinha amolgada, a suspensão rebaixada aderia mal ao piso em curvas apertadas, consumia demais, a manutenção era cara, e não trazia a revisão feita.
    — Estúpido! O meu jovem disse-me que sou toda coração e pulmão, um puro-sangue com doze cilindros em vê, turbinados, seja lá isso o que for.
    — Uma de duas coisas: um ser mitológico, metade máquina e metade mulher, ou um Ford Mustang, que é quase o mesmo. Eu sou péssimo com bestas, além de que, para emoções fortes, prefiro o bungee jumping.
    — Fiquemos então assim ― você o cínico inveterado, eu a mulher romântica.
    — Obviamente estava errado, ainda não bebeu o suficiente.  Vou buscar-lhe outro gin.
    Fecha o tomo de capa dura com um baque surdo sem marcar a página. Ergue-se. Rodeia a cadeira de lona e, num gesto lépido, sem se deter, enterrando os dedos no cabelo, acaricia-lhe a nuca em suave arranhão. Leva depois a mão à boca onde o sabor se troca. O andar estugado irá conduzi-lo ao bar mais distante. Ela vai observando, imóvel como uma estátua de sal, enquanto ele desaparece entre as dunas. Aguarda que a descarga eléctrica, percorrendo o corpo, se dissipe nas terminações nervosas.
     As unhas de gel carecem de manutenção, e esse é um assunto que pode resolver sem pensar. Empunha o smartphone como se fosse uma arma.

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*Este ajuntamento de palavras, reunidas no Verão de 2014, estava em pousio quando Alexandra Lucas Coelho deu à estampa O Meu Amante de Domingo que, por acaso, era mecânico. Levado pela maré que afogou um disco rígido externo, foi entretanto recuperado na versão papel.