Thursday, 8 January 2015

Tous des Charlie - o verdadeiro socialismo é isto: colectivizar o sentimento, mas há um preço que se paga, a moeda são cadáveres


A tempestade perfeita é informativa. Sobre o leitor, ouvinte, ou mero transeunte, abatem-se vagas sucessivas de bits e bytes, sem fuga ou salvação possível. 

O paradoxo das grandes tragédias, perpetradas por vontade e mão humana, consiste em satisfazer necessidades divergentes: a comunicação rigorosa* dos factos com interesse público; a propaganda do móbil dos autores; a curiosidade mórbida pelo detalhe macabro, e finalmente isto: a união dos povos, das gentes e das vontades; a colectivização do luto e da dor (incluindo os que viram a cara perante um sem-abrigo, ou pontapeiam um cão vadio). 

As massas unem-se espiritualmente, com o sofrimento alheio, ou em concertos de música rock - e auxilio químico. No primeiro caso há que morrer alguém de antemão, e, se a isso pudermos juntar uma causa, e.g., a liberdade, a liberdade de informação, a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, tanto melhor. Mas antes... que se morra! Não existe liberdade sem derramamento de sangue, e gritos e apelos nas redes sociais. 

Neste momento Julian Assange e Edward Snowden contemplam a hipótese da imolação e do martírio. A denominada "informação" por vezes também é apenas isto: um processo automático de se actualizar o medo.

Contudo, não desesperemos, logo, logo, teremos que saber tudo sobre a crisálida: «Justin Bieber, de ídolo "teen" a "sex symbol" mais maduro»

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*«Ataque experiente com "precisão militar"», clama a imprensa, provavelmente a reprodução descerebrada de mero press release ou comunicado oficial: os atacantes desconheciam o endereço do jornal: erraram o edifício em tentativa frustrada - indício da falta de reconhecimento do terreno. Experiência com armas e "precisão militar" são coisas diferentes.

Tuesday, 6 January 2015

Mário Macilau


 Purification of the Soul, The Zionist series, 2010

Monday, 5 January 2015

Recordar sorrisos em falsas promessas colhidas no chão



É este o tempo, por todos aceite, de renovar os votos despidos de empenho, as boas intenções, e as promessas vãs. A limpeza da alma vem com data marcada e periodicidade anual - como a desparasitação interna nos cães. Mais tarde, logo chegará, a hora de com elas se pavimentar o inferno. Ontem todos fumaram o último cigarro, beberam o último whisky, e juraram falsamente uma última vez. Hoje somos uma comunidade exemplar, pia e devota, responsável. Amanhã o impulso reformador será jogado ao vento e as nossas limitações mais evidentes que os glúteos de concorrentes televisivas.

O Ano Novo é uma instituição inofensiva e sem utilidade particular, em prol de quem quer que seja, excepto como bode expiatório de gente embriagada que expele declarações emotivas e faz juras postiças. Apesar disso, é desejável que todos usufruam o momento com a ligeireza adequada à grandiosidade da ocasião.