Wednesday, 30 April 2014

Tuesday, 29 April 2014

Beijo escafandro


Enamorei-me tantas vezes quantos alguns dedos de uma mão. Não te pedirei que rezes por mim, será em vão. Melhor será um beijo, sôfrego, delirante, afogar n'ele o desejo. Depois vir à superfície e respirar, ofegante com a força do abraço. «Ai, que vou sufocar», galhofas tu, eu, acabrunhado, baixo o olhar, e o que vejo? Calções! Não sei que faça, um ligeiro amasso ou falo de corações? Falta-me a inspiração, um momento, fica, não fujas, eu vou ali às Rimas roubar o Camões. «Demoras muito?», continuas a zombar. É desta que me rendo, penso, que se dane, abandono o versejar, agarra-me: vou mergulhar!  

Outrora, pilares da esperança





«... já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos de andar como dantes...»

Projecto díptico vertical #177


Egon Schiele, Liebende (Lovers), c.1909
Elena Kovaleva, Solitude, 2011

Monday, 28 April 2014

O mundo ao nível subatómico seguido de verdades universais #19



«Love isn’t something natural. Rather it requires discipline, concentration, patience, faith, and the overcoming of narcissism. It isn’t a feeling, it is a practice.» 
— Erich Fromm, The Art of Loving

O mundo ao nível subatómico seguido de verdades universais #18





«Muitos elegem a pornografia porque receiam pelo seu casamento. Receiam que ele queira voltar.»
— Ho Lin Huan, Dichotes do Budista Gordo, Guimarães, 2012, Edições Alfazema

Sunday, 27 April 2014

Vasco Graça Moura (1942-2014)


Testamento de VGM (Excertos)

1.
no ano em que sou duplo trintão,
tempo de ver-me sem lisonja
mas sem temor, sem contrição,
tempo de não passar a esponja, 
nem de soprar mesmo de longe a 
chama em que ardeu o meu estilo,
nem de glosar motes de monja,
nem de guardar de mim sigilo,

[...]

3.
sendo em política incorrecto,
deram-me amor, literatura, 
algum suor, algum afecto
e meias-tintas de amargura,
alguma sombra mais escura,
algum mais fundo sentimento,
e achando assim azada a altura,
para fazer um testamento,

[...]

13.
aos inimigos (pura perda
de tempo a ouvi-los rugir-me)
a esses deixo toda a merda
com que quiseram atingir-me
e ao deixá-la digo a rir-me
"comei-a toda agora a cru,
que a digestão vos seja firme
e ao fim lambei o próprio cu".

[...]

16.
fiz boas, más, neutras acções
e fui leal, mesmo, acreditem,
com muita gente sem colhões.
citei autores, pois que me citem,
ou me distorçam, ou crocitem,
me esburguem todo em fim de festa,
mas acrescento mais um item
e nada deixo a quem não presta.

[...]

20.
pois num país sempre a dormir
porque não hei-de em qualquer canto
deixar-me estar antes de abrir
da doce aurora o róseo manto?
se cada um só quer ver quanto
ressona mais do que o vizinho,
eu sendo assim, não me levanto:
vai portugal por mau caminho.