Virtudes e pecados, dor e prazer, temas banais. O seu e o seu contrário. Depois veremos melhor.
Saturday, 15 March 2014
Thursday, 13 March 2014
...
To the Virgins, to Make Much of Time
Gather ye rosebuds while ye may,
Old time is still a-flying:
And this same flower that smiles to-day
To-morrow will be dying.
The glorious lamp of heaven, the sun,
The higher he's a-getting,
The sooner will his race be run,
And nearer he's to setting.
That age is best which is the first,
When youth and blood are warmer;
But being spent, the worse, and worst
Times still succeed the former.
Then be not coy, but use your time,
And while ye may, go marry:
For having lost but once your prime
You may for ever tarry.
― Robert Herrick
Wednesday, 12 March 2014
A fenda feroz
A manhã vai alta. Acorda de pálpebra moribunda. Não ignora que o corpo responde mal depois de liberto do casulo da volúpia nocturna, mas ainda assim é surpreendido pela ausência de cor e ruído. Os sentidos botos transmitem a mensagem: não foi aquele o dia em que acordou mais novo. Um daqueles poetas, observadores das nuvens que pairam em cada folha de papel saberia o que dizer mais: ele apenas tosse. É no que pensa enquanto estica as pernas e assenta os pés no chão. Desequilibrado, na beira do futon, sente o frio do
pavimento revestido a madeira exótica, despida de conforto ou consolo. Mede o
espaço. Janelas altas rectangulares, nuas, ocupam toda a parede virada a
nascente. Imponentes como gargantas de adamastores regurgitam luz em golfadas
ininterruptas. Por um instante receia a cegueira da neve tal a intensidade do
branco, quase líquido, que inunda o compartimento. Alfinetes invisíveis
cravam-se na parte anterior dos olhos. Indisposto reconhece que a parte feliz
da intoxicação desapareceu, chega a catarse. Inspira
profundamente, faz uma pausa nos movimentos e observa melhor: apenas
tonalidades pálidas cobrem a divisão, tecto, paredes e mobiliário, nem o soalho
muito claro interrompe essa harmonia. Nas paredes, em nichos ogivados,
perfilam-se objectos cuja função desconhece. Está ali presente a austeridade de
instalação hospitalar novecentista, ou de igreja protestante – é cedo para
fazer a destrinça. O colchão japonês, onde já consegue sentar-se, colocado
sobre um estrado, à maneira ocidental, está no centro da divisão. Um cobertor
revolto, empilhado, gera relevo na paisagem monacal; pequenino monte lascivo,
vencido e abandonado à sua sorte por alpinista da carne láctea. Tem consciência
que, visto em perspectiva, o quarto é semelhante a uma capela. Sente a piada
fácil e grosseira a fazer caminho dentro de si e reprime, não está pronto para
sacrifícios na pedra de ara. Opta por ver-se como o cirurgião e a cama a sua
mesa de operações. Vazio de ironia encontra ali terreno propício à comparação
feliz, ao fim e ao cabo o seu trabalho durante a noite foi intervenção de
monta, laborou sem descanso na incisão que, sabia ele, vinha de origem; manteve
a ferida aberta, seguiu as instruções à risca, tatuadas logo abaixo do umbigo:
«Não Suturar», dizia. É tudo o que recorda da leitura. Também sabe que não
podia ter feito nada diferente: o corpo manda, o escalpelo obedece.
Não existem muitos sons
durante uma vida que suplantem o interesse de passos femininos, seguidos de
um toc, toc, na porta do quarto. Afivela um sorriso,
levanta-se e caminha, já não recordando se vai entrar ou sair.
Subscribe to:
Comments (Atom)


