Thursday, 13 March 2014

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Eric Gill, Earth Receiving, 1926

«We are Earth’s organs and limbs; we are syllables God utters from his mouth.»
— Annie Dillard, For the Time Being

To the Virgins, to Make Much of Time


Gather ye rosebuds while ye may,
Old time is still a-flying:
And this same flower that smiles to-day
To-morrow will be dying.

The glorious lamp of heaven, the sun,
The higher he's a-getting,
The sooner will his race be run,
And nearer he's to setting.

That age is best which is the first,
When youth and blood are warmer;
But being spent, the worse, and worst
Times still succeed the former.

Then be not coy, but use your time,
And while ye may, go marry:
For having lost but once your prime
You may for ever tarry.

― Robert Herrick

Wednesday, 12 March 2014

A fenda feroz



A manhã vai alta. Acorda de pálpebra moribunda. Não ignora que o corpo responde mal depois de liberto do casulo da volúpia nocturna, mas ainda assim é surpreendido pela ausência de cor e ruído. Os sentidos botos transmitem a mensagem: não foi aquele o dia em que acordou mais novo. Um daqueles poetas, observadores das nuvens que pairam em cada folha de papel saberia o que dizer mais: ele apenas tosse. É no que pensa enquanto estica as pernas e assenta os pés no chão. Desequilibrado, na beira do futon, sente o frio do pavimento revestido a madeira exótica, despida de conforto ou consolo. Mede o espaço. Janelas altas rectangulares, nuas, ocupam toda a parede virada a nascente. Imponentes como gargantas de adamastores regurgitam luz em golfadas ininterruptas. Por um instante receia a cegueira da neve tal a intensidade do branco, quase líquido, que inunda o compartimento. Alfinetes invisíveis cravam-se na parte anterior dos olhos. Indisposto reconhece que a parte feliz da intoxicação desapareceu, chega a catarse. Inspira profundamente, faz uma pausa nos movimentos e observa melhor: apenas tonalidades pálidas cobrem a divisão, tecto, paredes e mobiliário, nem o soalho muito claro interrompe essa harmonia. Nas paredes, em nichos ogivados, perfilam-se objectos cuja função desconhece. Está ali presente a austeridade de instalação hospitalar novecentista, ou de igreja protestante – é cedo para fazer a destrinça. O colchão japonês, onde já consegue sentar-se, colocado sobre um estrado, à maneira ocidental, está no centro da divisão. Um cobertor revolto, empilhado, gera relevo na paisagem monacal; pequenino monte lascivo, vencido e abandonado à sua sorte por alpinista da carne láctea. Tem consciência que, visto em perspectiva, o quarto é semelhante a uma capela. Sente a piada fácil e grosseira a fazer caminho dentro de si e reprime, não está pronto para sacrifícios na pedra de ara. Opta por ver-se como o cirurgião e a cama a sua mesa de operações. Vazio de ironia encontra ali terreno propício à comparação feliz, ao fim e ao cabo o seu trabalho durante a noite foi intervenção de monta, laborou sem descanso na incisão que, sabia ele, vinha de origem; manteve a ferida aberta, seguiu as instruções à risca, tatuadas logo abaixo do umbigo: «Não Suturar», dizia. É tudo o que recorda da leitura. Também sabe que não podia ter feito nada diferente: o corpo manda, o escalpelo obedece.

Não existem muitos sons durante uma vida que suplantem o interesse de passos femininos, seguidos de um toctoc, na porta do quarto. Afivela um sorriso, levanta-se e caminha, já não recordando se vai entrar ou sair.



Silêncio retumbante habitado por gestos


Thomas Eakins, The Gross Clinic, 1875