quarta-feira, 14 de julho de 2021

quarta-feira, 7 de julho de 2021

I know I did wrong. I repent that

 

 Cântico Negro

“Vem por aqui”- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
—Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: “vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
a ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei para onde vou,
Não sei para onde vou
—Sei que não vou por aí!

José Régio



The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Robert Frost


domingo, 4 de julho de 2021

Quando as tendas e os shots eram outros - Festival F - Vila Adentro, 2015 (Do arquivo morto)




Sempre foi?
— ...?
Ao festival propaganda da edilidade.
— Sim. Pretende relatório
Dava jeito, para referência futura.
Chute.
— Peixe?
— Não tinha a refeição decidida, vacilei entre a roulotte dos hot-dogs e a haute cuisine.
E no que ficou?
— Sentado, com prato e talheres. E bebidas.
Mopho e Orblua?
— Não faço ideia, jantava. Uma opção sensata, o ruído (é disso que se tratava) chegou esmaecido.
Mazgani?
— Iraniano, canta em inglês para audiência portuguesa. Estica a voz além dos seus limites chegando ao falsete, ou apenas cantarola. Acordes jazzy e bluesy. Temas banais. Melhor nas versões cover.
O Manuel Cruz?
— Comunicativo: «É isto!». Executa um instrumento cujo nome desconheço, uma espécie de pífaro com teclas, ligado à boca por um tubo. Ofereceram-me um, em aniversário longínquo, mas não vinha equipado com o tubo, daí a efémera carreira musical. Sofri três "faixas" com pretensões de originalidade e devaneios sonoros. É um caso que prova como a soma das partes (más) é (bem) maior que o todo.
Rita Redshoes?
— Estava gira, carinha laroca, cabelo curto com mais volume no topo. Beijava-lhe o umbigo que o casaquinho curto, de lantejoulas encarnadas, deixou ver. Já as calças de fole, tipo palhaço rico, não gostei - deve ter as pernas magrinhas.
Parvo, você! A música?...
— Ah!... isso. Se fecharmos os olhos e ela tocar as músicas do David Fonseca, ou vice-versa (imaginando que ele teve papeira na idade adulta) ninguém percebe.
Os D'Alva?
— Buraka Som Sistema para pequeninos. Uma background vocal gira. É malta animada. Honestos no trabalho de palco. Querem o people a dançar. Não pregam filosofias de vida nem auto-ajuda.
Sara Paço?
— Não ouvi. O espaço era pouco, estava apinhado e não vi nenhum par de mamas que chamasse por mim.
Você é tarado por mamas?
— Nada, zero, niente, absolutely not, durchaus nicht, rien de rien. Excepto, obviamente, claro, se, como para todos os membros do sexo masculino elas me entrarem pelas vistas adentro.
Isso é uma referência ao cognome do festival, Vila Adentro?
— Não, mas é bem pensado, um festival cá dentro, só com mamas.
Bem... e os Deolinda?
— Som limpo, executantes exímios, intérprete com excelente voz, atrevida e boa presença em palco. O problema é o repertório, muito fadisteiro, depois da quarta canção parecem todas iguais.
Virgem Suta?
— Estava longe do palco, vi muito mal.
We Trust?
— Nope!
Carlão?
— Tiques de vedeta pop. Surge de hoodie, carapuço enfiado. Charro na boca, e é ali, em palco, que "trava" as últimas passas. Retira o smartphone do bolso e joga-o, displicente, na mesa do DJ. Na audiência os mais novos são "os putos", todos os demais estão lá para venerar "o artista", saudar, levantar o braço, pular, gritarem, tudo a comando do homem do garruço. E sem serem pagos. Carrega um baixista, um vocalista, um multi-instrumentista e um DJ que faz um scratch que não lembra ao diabo. As rimas, quase todas terminadas em ão, destilam filosofia de Facebook e Chagas Freitas, refere carapinhas (apesar d'ele usar o cabelo rapado) e cabritas. Africanidade mal representada.  
Nada foi bom, nem sequer a stand-up comedy?
— Graçolas sobre refugiados sírios com uma só perna, sem-abrigo e dick pics não fazem o meu género. Mas foram apenas cinco minutos do primeiro interveniente.
Mas não gostou de nada?
— Das minhas convicções; o som ao vivo, ao ar livre, é sempre mau, os "artistas" promovem constantemente "o último trabalho" de que ninguém quer saber. A audiência fala constantemente entre si e grita e guincha quando não está a engolir cerveja, soft drinks ou shots de tequila mexem-se, empurram. Fui mal habituado, a Aula Magna, sabe...?
Bem, e o espaço, a organização?
Ruas estreitas, apinhadas, sobrelotação, quando ofegam junto ao meu pescoço espero sempre um bom motivo.
...
 
 

I am sure there are things that can’t be cured by a good bath but I can’t think of one*


Lily McMenamy por Tung Walsh

*The Bell Jar, Sylvia Plath

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Um baú grandiloquente de recordações mudas #3 (Do arquivo morto)

 


Mulheres que usam adornos com berloques, exíguos, irrelevantes, cadáveres pendurados no cadafalso.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Um baú grandiloquente de recordações mudas #2 (Do arquivo morto)

  

 

By Mikael Jansson


Mulheres improváveis trajadas de adereços, apenas de adereços, é uma ideia estimulante.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Um baú grandiloquente de recordações mudas #1 (Do arquivo morto)


Mulheres que acontecem, envergar trajes mínimos e esboçar sorrisos, exalam um fruitivo aroma a pecado.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Obrigado António (Do arquivo morto)

 

«Quem diz que escreve para si próprio [...] é assustadoramente ateu.» 

― Umberto Eco


É usual ficar enredado a construir um pensamento, um aforismo, uma boa meia horaO trabalho fica completo quando já nenhuma alteração é possível, seja porque a ideia ficou aceitavelmente expressa, seja porque qualquer mexida irá desconjuntar o texto, ou simplesmente porque o cansaço e o aborrecimento não permitem mais. Mas nem sempre resulta assim; também sucede uma péssima execução destruir uma boa ideia, uma frase de efeito provir de pensamento medíocre, ou a imagem e a escrita batalharem de tal forma entre si que o resultado é uma assegurada destruição mútua(MAD).

Não incorro na desmesura de Flaubert que buscava sem descanso, durante semanas a fio, a palavra exacta (le mot juste), para uma qualquer oração do seu Madame Bovary. Eis que a obra-prima tem hoje mais de quinhentas traduções (merdosas) em todo o mundo e o trabalho excruciante de Flaubert não faz diferença alguma para o não leitor da língua francesa.

Vem tudo isto a propósito do trabalho de edição ou revisão de texto que António Lobo Antunes menciona na sua entrevista ao jornal Público, suplemento Ípsilon.*   

Quando ALA revela que Steiner perdoa a Nabokov os seus pecados, pois sem ele não teríamos Lolitas, a Flaubert devemos agradecer a minúcia, foi ele o autor da verdadeira balzaquina (a MILF actual) - aos trinta é cedo.**

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*Algures em Novembro de 2014.

**A parte restante perdeu-se e ainda bem. Acho.