terça-feira, 1 de dezembro de 2015

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

domingo, 29 de novembro de 2015

Quando a raiva inunda o peito, guarda na língua os avisos do ladrar insolente


Daniela Montoya por Chris Heads para GQ Itália, Setembro, 2009

...


IL Y AVAIT DE LA TERRE EN EUX, et
ils creusaient. 


Ils creusaient, creusaient, ainsi
passa leur jour, leur nuit. Ils ne louaient pas Dieu
qui – entendaient-ils – voulait tout ça,
qui – entendaient-ils – savait tout ça. 


Ils creusaient, et n’entendaient plus rien ;
ils ne devinrent pas sages, n’inventèrent pas de chanson,
n’imaginèrent aucune sorte de langue.
Ils creusaient. 


Il vint un calme, il vint aussi une tempête,
vinrent toutes les mers.
Je creuse, tu creuses, il creuse aussi le ver,
et ce qui chante là-bas dit : ils creusent. 


O un, o nul, o personne, o toi:
où ça menait, si vers nulle part?
O tu creuses et je creuse, je me creuse jusqu’à toi –
à notre doigts l’anneau s’éveille.

— Paul Celan, Pavot et mémoire, tradução do alemão de Valérie Briet, 1987

sábado, 28 de novembro de 2015

Abraço o trabalho do mineiro e cavo prazer no veio do teu corpo



Imagem de James Christopher

«Kropotchine, se estava normal, vinha cheio de urgências. Os seus beijos faziam-se vorazes, inundava-lhe a boca toda com a língua, saliva e bigodes, deixando-a quando se afastava rebrilhando de muco e tão vermelha como uma ferida aberta. Nessa altura os olhos de Kropotchine já tinham o característico langor mortiço, o sexo aparecia de repente na sua mão como um estandarte e ele empurrava-a contra a parede e arremetia várias vezes de uma forma que queria ser exemplarmente erótica e sumariamente brutal e não conseguia ir além do arremedo de uma farsa boa para assustar meninas em idade escolar. Porque no fim de contas Kropotchine era um clássico, um macho soft, um tipo quase tão romântico como o Yves Montand. Preferia fazer amor deitado na cama ou no tapete, às vezes sentado quando escasseava o espaço disponível, mas era muito típica da sua sexualidade pouco burilada aquela maneira de espetar uma mulher contra a parede.» 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A paixão despede-se com um beijo na face


Emanuela Franchini


«... um beijo na boca, colossal, interminável, quente e adocicado como uma compressa de bife cru. Felizmente, sendo ambos de nariz curto, pude continuar a respirar livremente e a duração do beijo tinha a vantagem de me permitir coordenar os pensamentos e pôr-me a pau, como sói dizer-se.»
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Um do acém para quem identificar o/a autor/a.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Youth is wasted on the young


Sobre imagem de Terry Richardson com Charlotte Free



sábado, 21 de novembro de 2015

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Seppuku




Uma língua afiada corre o risco de cortar a própria garganta.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

(Retomando...)


Marilyn Minter, 1990


Uma língua que agrade a todos, adulando, como o cão que abana a cauda.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

#JeNeSuisPasCharlie


Acto terrorista: avião abatido: 224 mortos. Charlie Hebdo o jornal «irreverente que respeita os valores democráticos e a liberdade de expressão», nas palavras do seu editor-chefe Gerard Biard, «tem todo o direito de comentar factos e notícias de forma diferente». No atentado contra a companhia aérea destroços são bombas e os passageiros idiotas; não elegeram uma low-cost em que os pilotos trafiquem cocaína, mais segura, e francesa. O acento tónico é colocado nos bombardeamentos russos sobre a Síria, na qualidade da companhia aérea e na estupidez dos passageiros. 132 mortos depois, em Paris, e com a França a bombardear o Daesh acantonado em povoações civis, não com parafusos ou corpos desmembrados, mas com mísseis, Charlie Hebdo publica nova caricatura, nesta ocasião celebra a vida, e os terroristas "que se fodam, eles têm as armas, nós temos o champanhe". O porta-aviões de propulsão nuclear, Charles de Gaulle, não transporta garrafas.

A qualidade da sátira oscila com a nacionalidade dos mortos. Cresce cada vez mais fina a linha que separa o insulto da liberdade de expressão.




terça-feira, 17 de novembro de 2015

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta. (Lolita, Nabokov)



Sobre Larkin on the phone de Mark Maggiori, Hollywood, 2011


«[...] assim como a idade não amacia o temperamento cáustico, a língua afiada é o único instrumento cortante cujo gume se adelgaça no uso continuado.»
— Washington Irving, 1819-20, The Sketch Book, Rip Van Winkle (tradução livre)

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A língua deitada em cama de mel, prisioneira do caos



Thomas Ruff, Nudes, 2001


    [...]
    We spoke all night in tongues,
    in fingertips, in teeth.

— Spring, Robert Hass

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Donc, camembert, monsieur Gruyère!


Dono e senhor de um vernáculo ímpar, vizinho da raiz etimológica, desce os fundos abismos da língua com a auctoritas moral e a segurança de um bonus pater familias. Emerge feliz e contente. Na boca traz, suspenso no sorriso, sinónimo virgem de sentido. Cresce evangelista da frase curta, faz da pausa glotal e das vogais prolongadas, e consecutivas, a sua arma. Tem detractoras, ah! Se tem! Portadoras de cruzes entre seios ausentes rouquejam ofegantes: «Não seja... Ai!... Meu Deus!... vulgar.»

Por fraqueza de carácter desbarata o acervo patrimonial com mulheres perdidas, desencontradas da existência, almas condenadas. Perdeu tudo: latim, onomatopeias e interjeições, frases e orações. Actualmente, um perfeito cavalheiro (observando jejum vocabular) preenchido de sorrisos, mesuras e rapapés, não lhes arranca um orgasmo sem antes pedir licença em linguagem gestual.
 

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Projecto díptico vertical #190


Medical School Class & Staff (with Cadaver), Gilbert’s Studio, 1900
Naked City, Indiana, George W. Gardner, 1973

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

«As time goes by»


Half of me is empty. I'm trying to fill it up with joyful memories of elderly dreams.

...


Gastei muito em bebida, mulheres e carros velozes. O resto desperdicei. (George Best, 1946-2005)

Dream World



Projecto díptico vertical #189



Projecto díptico vertical #188


Projecto díptico vertical #187


.

domingo, 8 de novembro de 2015

Projecto díptico vertical #186



Congo Belga, 1925, Hugo Bernatzik, Wife of a Mangbetu Chief

sábado, 7 de novembro de 2015

Projecto díptico vertical #185




(Na minha cabeça, quando Adele canta "Hello", oiço Lionel Richie a perguntar "Is it me you're looking for?")

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

terça-feira, 27 de outubro de 2015

The silly thing is that I was the world to her, all she ever wanted. She never expected the earth, just whatever I could spare, and still I could not cope. It's too late now



Dicionário ideográfico. Da piedade


Ah! A piedade, por muitos considerada o mercurocromo dos ricos, a kryptonite dos banqueiros, a água-benta das causas solidárias, o hidrato de carbono das anorécticas. Tenho para mim que a sua detenção é inversamente proporcional ao uso. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Alegoria platónica


As pessoas exuberantemente felizes, as mulheres felinamente sensuais, os possuídos de indignações diárias e os subscritores de todas as petições, deviam ser coisa proibida. Um individuo mediano, dotado de senso comum e alguma (pouca) inteligência, pode ser levado a interrogar-se em que caverna vive e que sombras são aquelas que vê reflectidas na parede. 

domingo, 25 de outubro de 2015

I was no dream


Caccia notturna, Paolo Uccello ca. 1460 (Ashmolean Museum, Oxford)

«The hunt was a courtly metaphor for the pursuit of love. The hunter — the male rampant. The hind or deer — the defenceless female. But in the game of desire, the chase is so much more uncertain. Is the deer fleeing for her life, or leading her love away deeper into danger? The hunter doesn't know.»
Lewis, The Point of Vanishing, guião de Paul Rutman

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Remembrance


They flee from me, that sometime did me seek
    With naked foot, stalking in my chamber.
I have seen them gentle, tame, and meek,
    That now are wild, and do not remember
    That sometime they put themselves in danger
         To take bread at my hand; and now they range
         Busily seeking with a continual change.


Thanked be fortune it hath been otherwise
    Twenty times better; but once, in special,
In thin array, after a pleasant guise,
    When her loose gown from her shoulders did fall,
    And she me caught in her arms long and small;
         Therewith all sweetly did me kiss,
         And softly said, ‘Dear heart, how like you this?’


It was no dream: I lay broad waking:
    But all is turned, thorough my gentleness,
Into a strange fashion of forsaking;
    And I have leave to go of her goodness,
    And she also to use newfangleness.
         But since that I so kindly am served,
         I would fain know what she hath deserved.

They flee from me, Sir Thomas Wyatt, 1557 

Retorno às beldades. Pretender que a sequência da dança das ninfas no sonho (aqui as opiniões dividem-se: sonho ou vigília) é uma homenagem, e não uma paródia, ao bailado L'après-midi d'un faune, de Nijinsky (inspirado na obra com o mesmo nome de Mallarmé), é intelectualizar, pelo excesso, o apetite de Chaplin. Já velhinho ainda ingeria várias ao dia, após dez mastigações cada para facilitar a digestão, conforme recomendação médica


Charlie Chaplin e as ninfas (Olive Ann Alcorn, Edna Purviance, 
Willie Mae Carson e Helen Kohn), no filme Sunnyside de 1919

quarta-feira, 21 de outubro de 2015


 

L'Etat, c'est moi!


À atenção da Causa Real e do 31 da Armada: Se forem bons meninos e puderem garantir que tudo isto não vai desaguar numa Monarquia Constitucional, onde todo o poder é do Parlamento, talvez admita ser o príncipe herdeiro.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Só por causa das coisas


Canyon Nymph, ca. 1920, Forman Hanna

«Na mulher, certas idades constituem, digamos assim, um afrodisíaco eficacíssimo. Por exemplo:- 14 anos!»
— Nelson Rodrigues

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

I am not in love . . . but I’m open to it


A Caverna das Ninfas da Tempestade, 1903, Sir Edward Poynter

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Every man needs two women, a quiet home-maker, and a thrilling nymph


Ninfas e Sátiro, 1873, William-Adolphe Bouguereau

Shelley


The Water Nymph, 1908, Herbert James Draper

           And the rose like a nymph to the bath addressed,
           Which unveiled the depth of her glowing breast,
           Till, fold after fold, to the fainting air
           The soul of her beauty and love lay bare.
The Sensitive Plant, 1820

Ninfas, sejam todos os pecados meus, nas vossas orações, evocados (Hamlet)


Ilustração de Édouard Manet para L'après-midi d'un faune de Stéphane Mallarmé
 
J'avais de nymphes. Est-ce un songe? Non: le clair
Rubi des seins levés embrase encore l'air
Immobile.*
Ces nymphes, je les veux émerveiller.
Ces nymphes, je les veux perpétuer.**
_________________________________
*Versão inicial de 1865.
**Versão publicada em 1876 da obra maior (poética) do simbolismo francês.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Se a luxúria enche meu corpo fundo apenas um oceano o pode esvaziar*


Culpado foi o Inverno ameno e seco. Ainda o estio vinha longe e já o mercúrio galgava a escala. Astrólogos e meteorologistas, ofícios irmãos na exactidão matemática e de reputação consagrada, agouraram: «O Verão do nosso descontentamento não tarda,** e será um dos mais quentes de que há memória.»*** A justificação? Elementar (explicou depois o professor doutor J. H. Watson da Universidade de Oxford), as alterações climáticas cresceram em pujança. Após a mortandade vegetal na Amazónia, os excessos nos combustíveis fósseis (Volkswagen incluída), o metano lançado à atmosfera por vacas de todo o mundo (uni-vos!), eis que eclode impetuosa e despudorada a máquina de fumar electrónica. A invenção que suprime o elitista charuto e o operário cigarro foi saudada com vivas e amanhãs cantados. E-fumadores de todo o mundo batem no peito em contentamento, arrotam nicotina automática e exibem amor ao pénis do robot. Freud cora enquanto inala mais uma linha.****

Sensato, faz planos. Não garantem sucessos, minimizam riscos. Assim acredita com a mesma fé de quem carrega um pára-quedas suplementar. Em Dezembro faz pedido ao Menino Jesus. A quem havia de ser? Cristão, assiste com repulsa ao desvelo que pais e educadores ostentam pelo velho obeso de barbas brancas. Esse que nos templos pagãos atrai crianças com doces, as senta no colo, beija e acaricia. Ninguém gosta assim tanto de fedelhos mimados. O traje garrido e ridículo é disfarce. Envergasse ele fato de três peças Príncipe de Gales, farpela de escuteiro, vestimenta de professor de ginástica ou batina, e era vê-los correr, martelando smartphones, berrando indignações em redes sociais, lançando apelos e petições.


Por motivo dos custos de armazenagem, seguros e manutenção, pede entrega em Julho quando o calor requisita o corpo, os membros dilatam, a sudação mostra-se e as férias nos deixam ausentes de nós.


Chegara-se ao Outono e coisa nenhuma. Era uma dessas noites de luar, tépidas, em que o instinto nos leva a procurar espaços abertos. Abafa-se nas salas e não só de calor. Sentado frente à enorme massa líquida observa as ondas que se desenrolam exaustas — o plano inclinado devolve-as ao mar. Sobram na areia flocos de espuma, água morta portanto. Agora como antes ergue-se e caminha de volta ao topo da duna nua de flora nativa — um mons veneris actual. No trajecto pontapeia montículos de areia cobertos de lascas de búzios que, pequenas e afiadas, se cravam na pele, abrem feridas que sangram e ardem. A sua mortificação. Um ordálio e seria culpado. Inexoravelmente culpado. 

Não foi este o tempo de ser regalado com ninfa orgulhosa que despreze água para ficar molhada. Fica o remorso de não haver abandonado ninguém.  

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*«[...]se a luxúria enche meu corpo,/apenas minha amada o pode esvaziar.», versão Herberto Helder de canção indonésia traduzida sabe-se lá de que língua.
**Também veio no Outono, o outro descontentamento, em 4 de Outubro.
***Não leram Steinbeck. E do sucedido em 1975 saberão o que a têve mostra. O comunicado conjunto, tudo indica, terá sido redigido por um antigo revisor gráfico, da Imprensa Nacional Casa da Moeda, conhecedor das inclinações políticas do John.
****Sabemos que Freud a tomava liquida, diluída em água.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

...


«'What day is it?'
‘It’s today
,' squeaked Piglet.
‘My favorite day,’ said Pooh.»


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

segunda-feira, 5 de outubro de 2015